Briga de apaixonados. As brasas dos cigarros piscando no escuro da cama. As tragadas longas iluminando a apreensão dos rostos. O silêncio tentando esconder arrependimentos. As mãos indecisas não querendo ficar, nem fugir. A distância aumentando entre os corpos quase colados. A sensação de fim. A angústia de uma palavra que não vem. Os lábios mudos encontrando-se na única verdade. O abraço apertado, o momento feliz. As unhas raspando restos de ressentimentos. A respiração ofegante: de emoção, alívio reencontro - até a próxima.
O risco do sim. O medo do não. A indiferença do talvez. A dúvida do quem sabe. O conformismo do deixa pra lá.A acomodação do amanhã resolvo. O estímulo do não dá pé. O descrédito do sou capaz. O desânimo do não há outro jeito. A recusa do vamos em frente. A desconfiança do pode não dar certo. A rotina do assim está bom. E a vida passando lá do outro lado - o tempo perdido acumulando espaços vazios dentro de cada eu.
A decisão, sempre adiada. A displicência de deixar que o acaso seja dono da sinalização. Os prós e os contras passando pela peneira de uma auto-crítica desgastada. Mudar o comportamento viciado na rotina do conformismo. As fronteiras do até aqui e até ali apagadas pelo desejo de individualidade desprezada. Um drible no destino que traça o mapa da vida em cima do esboço dos próprios erros. Não deixar passar a oportunidade de ser. Simplesmente, ser.
(Textos de Leon Eliachar
publicados na
década de 60 no jornal "Diário de Notícias")