TENHO MEDO
Texto de Antenor Barros Leal,
publicado no jornal O Globo em
26/11/2002 e
divulgado na Internet em www.studio41.com.br
Tenho medo dos que esperam do presidente
Lula a solução de todos os problemas do país. Tenho medo do presidente
achar que vai resolvê-los. Dos que imaginam que o novo presidente vai aumentar
seus salários, repor seus antigos privilégios, alguns conquistados nas caladas
das trevas. Temo os que esperam ansiosos por voltar a produzir mal e vender
caro, protegidos por barreiras inconfessáveis e dos que têm como certa a
reimplantação, pelo PT, do controle dos preços e dos mercados
protegidos.
Temo os que esperam, em nome de uma falsa soberania ou de um
nacionalismo fabricado, restrições às importações e a liberdade de comprar e
vender.
Temos os que torcem para aumentar o tamanho do Estado, para lidar com
a burocracia, em vez de enfrentar a dureza do mercado.
Tenho pavor dos que se
preparam para tentar enganar o novo governo com esfarrapado discurso de proteção
ao mercado nacional, pois, incapazes de enfrentar a modernidade e competir,
sonham em fechar as fronteiras e empulhar o consumidor brasileiro.
Tenho medo
dos que imaginam resolver o problema da fome com distribuição indiscriminada de
mercadorias, criando um imenso mercado de atravessadores que engordarão seus
bolsos, fazendo elogios descarados ao modelo.
Tenho medo dos tais
arautos da justiça social, sempre esquecidos de defender a aplicação da
verdadeira justiça, ferramenta própria para reduzir desequilíbrios, cobrir o
enriquecimento fácil, reduzir a corrupção e, aí sim, produzir justiça social
digna desse nome.
E aqueles que abominam o indivíduo e colocam o Estado como
seu oráculo definitivo, combinando, na maior parte das vezes, apadrinhamentos e
favores. Tenho medo dos que sonham com a volta dos cartéis patrocinados pelo
Estado, beneficiando poucos em nome de um bem que jamais alcança os realmente
merecidos. Dos que imaginam que tirando de quem tem, para dividir com os que
nada têm, estariam resolvendo, como por milagre, os problemas de fome e
miséria. Daqueles que votaram em Lula pensando somente em si, só em si e nada no
país. E também, mais ainda, dos que eram contra e agora são "Lula desde
criancinhas". Dos que querem mais estatização, para se apropriarem da coisa
pública como se sua fosse. Dos que estão armando programas demagógicos
para, mais uma vez, enganar a população.
Tenho medo dos que já estão pedindo
sudsídios para vender seus produtos "populares" para matar a fome dos
brasileiros. Temo muito os pelegos, já bajulando e oferecendo seus préstimos. Os
que só querem emprego e fogem do trabalho.
Tenho medo dos que vivem mamando
nos recursos públicos e se arvoram em seus intransigentes defensores. Dos que
fazem oposição apenas como escada eleitoral, colocando a vitória pessoal à
frente dos interesses nacionais. Temo muito, muito mesmo, os que advogam o não
pagamento das dívidas, mesmo sabendo que só honrando seus compromissos o Brasil
terá mais crédito e investimentos.
Tenho medo de quem, por não ter solução
para os problemas, culpa os que governam pela sua existência.
Temo muito os
que se imaginam donos únicos da verdade, repositórios do bem, acima do
mal.
Tenho medo dos que transacionam com a verdade, iludem com estatísticas,
enganam com ilusões.
O presidente bem sabe que só o trabalho mata a fome. Só a
educação mata a sede. Só a justiça faz justiça. Só a perseverança constrói um
futuro digno. Só a lei manda.
Enganam-se , espero, aqueles que contam com
regalias, favores, salários nababescos e maracutaias. O presidente tem
compromissos com a nação e não com indivíduos ou grupos de interesses. E dele eu
não tenho medo.