SEI QUE VOU TE AMAR

A cena se passa no Rio que mora no mar. João e Gilberto, após andarem pela praia até o Leblon, sentam-se para aquele papo furado e um chope gelado num bar de Ipanema. Ao longe, um barquinho vai, desmaia o sol, a tardinha cai.

- Existe uma morena diferente passeando por aí. Olha que coisa mais linda que vem e que passa. Balança toda pra andar.

- Os olhos já não podem ver coisas que só o coração pode entender. Já não sei mais viver sem ela. Meus olhos choram a falta dos seus. Você se lembra dela?

- Só me lembro muito vagamente.

- Seus olhos são duas contas preciosas que, quando encontram os meus, parecem acompanhar a cor do mar.

- Tem dó! Você pretende sustentar opinião?

- Vou te contar. Eu quis amar, mas tive medo. Eu queria brincar de amor e quando telefonei: tuem, tuem, ocupado pela décima vez.

- Também quem mandou? Começaria tudo outra vez?

- Sim, promessas fiz. É impossível ser feliz sozinho. É o fim do caminho. Se eu pudesse voltar... eu sei e você sabe que eu gosto tanto dela que é capaz de ela gostar de mim.

- É melhor ser alegre do que ser triste.

- Triste é viver na solidão! Vivo sonhando mil horas sem fim, nestes mesmos lugares, na noite, nos bares...

- Um sonhador tem que acordar.

- Só sei que sou louco por ela e pra mim ela é linda demais.

- Quem sabe o inesperado faça uma surpresa?

- Ah, se ela voltar, que coisa louca. Vou vagar por aí pra esquecer.

- Ninguém pode viver de ilusão.

- Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar. Você está vendo só do jeito que eu fiquei e que tudo ficou?

- Pra que sofrer se a lua vai nascer é só o sol se pôr? Tudo isso é paz, tudo isso traz uma calma de verão.

- Inútil paisagem! O meu caminho sozinho é nada. Como é triste se sentir saudade.

- Chega de saudade!

- E por falar em saudade, você sabe o que é o amor? Não sabe, eu sei.

- Às vezes é melhor perder do que ganhar, você vai ver.

- É, meu amigo, só resta uma certeza, só um novo amor pode a saudade apagar.

Escureceu. Uma grande lua que saiu do mar, agora brilha no céu imensa e amarela. Os dois, ali na noite vazia, numa boemia sem razão de ser, vão, de conversa em conversa, de palavra em palavra, concluindo que são demais os perigos desta vida; é essa insensatez das pessoas que preferem trocar o sim pelo não; é fim de noite.

(Eu aqui tão só, escrevendo, fico pensando: onde anda você? Pobre de mim que só sei te amar.)

 

Do livro "Sexo, Mulheres e Ecologia"

                         Luiz Otávio