PERDIDO NO TEMPO
Sou do tempo das costeletas. Do tempo em que o homem
curtia mulher (sem dividir a conta) e não a ecologia e outros homens - ninguém
admitia ser chamado de afeminado ou de mariquinha e, diga-se de passagem, só as
mulheres usavam brinquinhos... "Vem cá se você é homem" - e o outro
ia. Trocavam ombradas de cara torta - tudo exibição ridícula, porém
autêntica. Do tempo da cortesia com as mocinhas, da boa educação, do elogio,
do galanteio, do flerte e do tempo em que se usavam as palavras: broto e
balzaquiana.
Sou do tempo dos filmes de bang-bang, das comédias de
costumes, brasileiras e italianas, do sonho da Zona Sul, da bossa-nova, das
festinhas de terno, aos sábados, embaladas a cuba-libre e roquinhos americanos
com coro no fundo.
Havia também o rock-balada, o beijo na boca, passeios
de mãos dadas, o noivado, os namoros desfeitos, tantos quantos fossem
necessários para manter a possibilidade ilusória de encontrar a prometida, as
normalistas, a ginástica de aparelhos, a rua Montenegro, as praias do Arpoador
e do Castelinho e o glamour de ir à sorveteria Bob's aos domingos, lá pelas
seis da tarde.
Era o tempo do mistério das pequenas coisas que se
transformavam em promessas de grandes sensações, das expectativas do vir a
ser. Era o tempo das ilusões inúteis - mas úteis enquanto ilusões. Profundas
ilusões baseadas numa fantasiosa esperança íntima, sem vínculo com a
realidade. Se me detenho nestas considerações é para registrar, no tempo, o
meu tempo. É a forma que encontrei para transmitir que um dia... uma época...
mesmo sem o saber, tive o meu tempo.