NAQUELA CERTA MANHÃ
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E o que você vai fazer amanhã?
- Vou à praia, cedinho, olhar as ilhas, as gaivotas e tomar grapete. Vai me
encontrar lá - e ela disse onde era lá.
Havia me esquecido que ela está na faculdade e, agora, em férias. Tem tempo
para essas coisas... simplesmente olhar a vida... pausa gratificante que aos
poucos vamos nos esquecendo, ocupados e preocupados que ficamos com assuntos
ditos sérios, obrigações, reuniões e memorandos - mundo dos afazeres e do
tempo agendado.
Uma tarde morna e ociosa. Caminhar e sentar na praça. Conversar sem objetivo,
sem audiência marcada, com o pipoqueiro. Me acena ao longe o valor das horas
sem valor, tipo menino gazeteiro, que mata aula por nada, como que prolongando
inconscientemente o "ficar à toa" que a vida, aos poucos, vai nos
privando com o passar dos anos.
- Bola ou búlica? Só morro de três tecos seguros.
Hoje em dia é: - Brasília ou perde o emprego. E morremos por qualquer
teco, basta um e não necessariamente seguro. Hoje, tristeza, assim como a
corrida contra o tempo, não tem fim. Felicidade? Sim, era uma espécie de
felicidade descalça pelo asfalto quente, correndo atrás de qualquer motivo
inesperado, o dia inteiro, de dezembro a fevereiro, com direito a julho.
No dia seguinte, me enchi de coragem e de travessura, deixei ao largo
compromissos maiores, que no momento se quedaram menores e, cedinho, fui
incontinente, procurando não pisar em determinadas linhas da calçada (quem
nunca fez isto?), sem pressa alguma, em direção à praia - todo o dia, ela,
ali me esperando, deitada ao sol.
A mocinha não apareceu lá (depois eu soube que
ela foi a uma entrevista para estágio). Olhei as ilhas, as gaivotas e
tomei grapete. Nada mais aconteceu... nada em especial. Apenas quis aqui
registrar o ocorrido naquela certa manhã, principalmente em relação ao
grapete.